Entrevista Kelvin Hoefler – SLS

Kelvin Hoefler durante etapa de Chicago deste ano(Foto: site Street League)

Kelvin Hoefler durante etapa de Chicago deste ano (Foto: site Street League)

A poucos dias do Super Crown, a Street League Skateboarding publicou em  seu site oficial uma entrevista exclusiva com o skatista profissional Kelvin Hoefler. Na conversa ele relembra a vitória no primeiro ano que participou do Super Crown, seu afastamento das competições e recuperação em 2016; o retorno ao skate, também fala um pouco sobre sua trajetória e, claro, suas expectativas para a próxima sexta, 15. Confira abaixo a tradução da entrevista.

Você estava fora da última temporada com uma lesão que sofreu no Tampa Pro. O que aconteceu e como foi o processo para voltar?

Como de costume, fiquei muito animado para o Tampa Pro. Fui para o bowl de concreto com alguns amigos para me divertir. Infelizmente, eu estava fazendo um 50-50 e meu truck de trás escorregou. Eu caí e quebrei minha tíbia e fíbula ao meio. Fui para o hospital e assisti as finais no domingo, logo após a cirurgia. Foi uma lesão muito ruim. Foi muito difícil para mim não poder andar de skate, porque ando todos os dias. Então o processo de volta foi muito lento e doloroso, mas ao mesmo tempo muito motivador. Toda nova manobra que eu conseguia fazer era uma grande recompensa. Eu sou muito abençoado por poder andar de skate novamente. Não consigo imaginar como seria a minha vida sem skate.

Kelvin marcou seu retorno às competições ao participar do Tampa Pro 2017 (Foto: site Street League)

Kelvin marcou seu retorno às competições ao participar do Tampa Pro 2017 (Foto: site Street League)

Como foi andar de skate nesta temporada após a lesão que o afastou a maior parte de 2016?

No começo eu estava muito assustado e tímido. Perdi um ano de evolução no meu skate. Eu tive que voltar e reaprender muitas manobras que costumava dar. Comecei a andar de skate novamente no Tampa Pro 2017. Tudo o que eu queria era voltar as manobras. Fiquei tão feliz por ter voltado meu kickflip frontside blunt, isso significou muito para mim. Depois disso fui para todas as outras paradas. Foi um ótimo momento para ver todos os meus amigos e viajar para Munique e Barcelona. Eu adoro ir para a Europa. Chicago também foi uma grande competição.

Você surpreendeu muitas pessoas quando ganhou o Super Crown World Championship de 2015 em seu primeiro ano no SLS. Você esperava fazer isso e como se sentiu ao ganhar?

Não esperava ganhar o Super Crown. Eu queria fazer boas manobras na competição. Eu não estava voltando minhas manobras durante os aquecimentos. Então eu falei, “Ou vai ou racha… É o Super Crown. Preciso de algumas manobras bombas. “Eu diria que eu sou muito abençoado por fazer parte da SLS e muito abençoado por ter ganho o Super Crown em 2015. Eu me machuquei depois disso. Pelo menos eu tinha o dinheiro para cuidar da minha saúde e para poder voltar forte para fazer o que eu faço. Obrigado a SLS pela oportunidade.

Na etapa da Alemanha ele fez um ótimo rolê e ficou com a 5ª colocação (Foto: site Street League)

Na etapa da Alemanha ele fez um ótimo rolê e ficou com a 5ª colocação (Foto: site Street League)

Você sempre andou bem na SLS, qual sua estratégia para as competições?

Eu apenas tento voltar as manobras que tenho em minha mente. Mas às vezes eu esqueço as manobras que eu quero tentar e faço outras na hora. Não tenho uma estratégia em mente. Eu apenas tento fazer uma boa volta e acertar algumas boas tricks.

Você é um dos poucos skatistas de rua que pode ser mais conhecido por competições do que partes de vídeo. Como você prioriza competições de skate e vídeos, para você um é mais importante do que o outro?

É interessante como as pessoas pensam isso, talvez porque não conhecem minha história. Eu cresci participando de competições no Brasil, como todos os outros skatistas brasileiros. Nós costumávamos andar de skate juntos em várias competições, desde que éramos muito pequenos. É assim que você pode obter algumas oportunidades e patrocinadores no Brasil. Então eu acho que assim todas as crianças começam no Brasil. Eu acredito que não exista isto de skatista de campeonato ou um skatista de rua. Todos nós saímos das ruas. Nós fomos da pobreza ao topo. Todos aprendemos a andar nas ruas e os campeonatos são campeonatos. Os skatistas são diferentes. Estamos sempre forçando nossos limites, quebrando ossos, indo ao hospital e nunca desistindo! Nós caímos 99 vezes e nos levantamos 100. Apenas pela sensação de voltar ou aprender uma nova manobra.

A primeira vez que eu vim para os Estados Unidos foi em 2009, para o Tampa Am. Eu vim com 300 dólares no bolso. Fiquei com meu amigo Caio Notaro em Atlanta e dirigimos para Tampa. Eu tive um sonho de que eu viveria na América. Eu era muito jovem e sem dinheiro. Então, como eu poderia fazer isso? Eu voltei para o Brasil e trabalhei para me tornar profissional com os patrocinadores que eu tinha na época para que eu pudesse ter algum dinheiro. Em 2011, fui para a Europa e ganhei alguns campeonatos WCS e economizei um dinheiro para viver na Califórnia. Eu só tive que investir em meus sonhos com o dinheiro que fiz a partir dos campeonatos.

Cresci em uma cidade litorânea chamada Guarujá, no Brasil. Todos lá surfam ou jogam futebol. A maioria das ruas na minha cidade natal não estava pavimentada na época. Então costumávamos andar de skate num pátio da escola, todos os dias depois da aula. Mas todos eram tão pobres e não tínhamos câmeras de vídeo ao redor. Com o primeiro dinheiro de um campeonato que ganhei no Brasil comprei uma câmera de vídeo. Mas ninguém sabia como filmar com ela. Meu pai era um policial, então ele nunca me permitiu ir a outras cidades para andar na rua quando eu era criança. Depois de completar 18 anos, consegui sair, viajar pelo mundo e começar a filmar mais nas ruas. Agora, eu geralmente filmo entre os campeonatos e guardo algumas imagens para qualquer coisa que eu preciso fazer. Eu acho que a filmagem nas ruas é a coisa mais emocionante para fazer. É divertido e você tem todo o tempo necessário para conseguir uma manobra. Além disso, a filmagem parece tão boa nas ruas. Andar de skate em um campeonato, às vezes, coloca muita pressão sobre você. Eu tenho mais diversão filmando nas ruas com certeza!

Kelvin também fez boa participação em Bacelona. (Foto: site Street League)

Kelvin também fez boa participação em Barcelona. (Foto: site Street League)

Como você se sente indo para o Super Crown este ano? Você está fazendo algo especial para se preparar?

Eu tenho filmado algumas imagens nas ruas. Ainda não tive tempo para pensar sobre a Super Crown. Algumas surpresas estão chegando e eu tive que filmar um vídeo de boas-vindas.

Eu acho que eu quebrei meu dedo em Barcelona, mas nunca fui descobrir. Então, meu dedo do pé dói muito ultimamente. Eu só vi a pista alguns dias atrás e parece ótima. Eu acho que uma pista como essa trará o melhor em todos nós.

Você é o Campeão do Mundo SLS de 2015, o que é preciso para ganhar o Super Crown na sua opinião?

Você precisa ter um bom dia e voltar todas as manobras que você tem em mente para si mesmo. Você não pode comparar-se com outros skatistas. Todos são bons e todos podem acertar. Você só precisa saber para onde está indo e saber que você vai chegar lá.

Kelvin garantiu em Chicago a vaga para o Super Crown (Foto: site Street League)

Kelvin garantiu em Chicago a vaga para o Super Crown (Foto: site Street League)

Carlos Ribeiro disse que é quase impossível que os brasileiros cheguem aos EUA para andar de skate, o que faz parte do que os leva a ficar tão bons. Qual é a sua perspectiva sobre isso?

Sim, ele está 100 por cento certo. Nós não temos muito! Quando eu era criança, tudo o que eu queria era comprar um shape da Santa Cruz. Mas era muito caro. Como 400 reais e o salário mínimo no Brasil era como 600. Meu pai nunca compraria um shape tão caro para mim. Uma das crianças mais ricas da minha cidade conseguiu isso para o Natal. Todos queríamos tocá-lo! Além disso, não aprendemos inglês nas escolas públicas. Para obter um visto para os EUA, você precisa ser rico ou conhecer alguém influente no governo. Eu tive o meu visto negado em 2008 porque minha família inteira não ganhou dinheiro suficiente. Em 2009 meus patrocinadores me ajudaram e me conseguiram um visto através da empresa. Costumava comprar tênis usado, eixos e rodas para andar de skate. Eu só tinha coisa novas no Natal. Eu tenho muitos amigos que eram muito talentosos e pararam de andar por causa disso. E eles eram muito bons! Apenas alguns conseguiram, por causa da família que pôde apoiá-los ou por causa do skateboarding. Depois de me mudar para os EUA, eu era tipo “todas as crianças aqui têm os melhores skateparks, os melhores tênis, os melhores shapes, as melhores rodas – tudo o que eles precisam é andar de skate”. Temos muito o que pensar antes de andarmos. Quando saímos para andar na rua no Brasil, precisamos ter cuidado com pessoas tentando roubar todas as nossas coisas também.

Onde você vê o skate e a indústria do skate no Brasil no futuro?

Eu acho que vai ser enorme. Há muito talento no Brasil e nas marcas também. Nós temos quase oito milhões de skatistas no Brasil. Há muitas marcas desconhecidas no Brasil porque importar é muito caro e as crianças não têm dinheiro para gastar em produtos caros. Tudo o que eles querem é poder andar de skate. Eu era uma daquelas crianças que não podiam pagar produtos caros. Mas tenho uma grande sentimento sobre o Brasil e a indústria. Eu acho que o skate vai crescer muito nos próximos anos.

O que você planejou para o resto do ano após a Super Crown?

Eu adoraria fazer filmes, alguns vídeos e uma nova parte de rua. Mas estou lutando comigo mesmo, porque preciso retirar todas as peças de metal e parafusos que tenho dentro do meu corpo. Está me incomodando. Eu ando de skate com muita dor todos os dias.

Pódio Tampa Pro 2017 (Foto: site Street League

Pódio Tampa Pro 2017 (Foto: site Street League)

A transmissão do Super Crown será feita a partir das 21h15 (horário Brasília) pelo site e aplicativo da ETN.O cronograma do evento você confere aqui.

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