Entrevista na Tribo Skate #243

Tiago "Picomano" tem entrevista na Tribo Skate

Edição 243 da Tribo Skate tem entrevista com o amador Tiago “Picomano”

Tiago Antunes é um dos nomes fortes do skate de Belo Horizonte. Presente em diversos eventos realizados no Brasil e com participações em competições na gringa, Tiago, ou “Picomano”, como também é conhecido nas sessões, está sempre na correria e procurando fazer a diferença na cena do skate brasileiro. E um dos reflexos desse trabalho são os vídeos e imagens publicados em diversas mídias. Com estilo e nível técnico Picomano conquistou seu espaço e, aos poucos, colhe os frutos dessa evolução.

Recentemente o amador teve uma entrevista publicada na edição 243 da revista Tribo Skate. Em dez páginas Picomano conta como foi o início no skate, sua carreira, eventos marcantes, momentos especiais e quais seus projetos para os próximos anos.

Confira abaixo a entrevista ‘Domínios de Picomano’ produzida por Diogo Groselha e reproduzida na íntegra. Assista também ao vídeo editado pelo amador com imagens de Thomas Losada, 12mm Skate, Wesley Silva, William Fernandes, Caio Notaro e Bruno Mendes.

Por Redação Tribo Skate

Como você começou a andar de skate?
Foi no natal de 1999, quando ganhei um skate do meu pai de tanto encher o saco dele. Nós sempre tivemos o hábito de andar de bicicleta juntos e passávamos por um lugar que tinha uma galera andando de skate, aí fiquei pedindo até ele me dar.

De onde surgiu o apelido Picomano?
Andava com uma galera e tinha um cara com apelido de D2; ele tinha mania de chamar os outros de Picumã, que é um tipo de fuligem ou aquela teia de aranha que fica preta por causa das cinzas de fogão a lenha, coisa da roça. E como eu era o menor, ele me chamava de Picumãzinho. Daí uma vez eu fui pra São Paulo e a galera não entendeu direito esse apelido e pensaram que era Picomano: pico de skate e mano de mano mesmo. Aí pegou e ficou assim até hoje. Não tem nada a ver com skate e nada a ver com nada mesmo.

Quais suas expectativas no skate?
Eu quero simplesmente andar de skate. Porque se eu quisesse ganhar dinheiro, tinha parado há oito anos atrás. É lógico que eu tenho projetos futuros e tal, mas atualmente meu objetivo é só andar de skate. Tanto é que tudo que eu fiz a faço até hoje é pra andar.

Você diz que não pretende viver de skate, mas fez alguma faculdade ou alguma outra coisa para ganhar dinheiro?
Até comecei uma faculdade de administração, mas depois parei. Meu sustento hoje é o skate. Eu gosto tanto de skate que tudo ao meu redor gira em torno dele. Sempre me dei bem em campeonatos, então juntei tudo que ganhei e abri uma pequena skateshop em casa. E quando fiquei sem patrocínio de shape, comecei a minha marca, a Ynova. Mas tudo isso não foi com a finalidade de ganhar dinheiro. Foi tudo, única e exclusivamente, para poder andar de skate, porque a gente gasta muito pra andar, não é?

O que você acha mais significativo: se destacar em campeonato ou fazer uma vídeo parte foda?
Cara, para mim os dois têm seu papel. Se você anda de skate, as duas coisas vão se cruzar. Não tem como você ser o cara que anda bem só em campeonato ou ser o cara que só anda bem na rua. Eu admiro mais aquele que consegue se sobressair nas duas coisas.

Existem skatistas que andam bem e têm um nível técnico elevado, mas que não conseguem ter a simpatia do público. O que você acha disso?
O simples fato de andar de skate já te torna um skatista. Se você tem uma galera, anda bem e isso te faz feliz; isso já é importante. Agora, a partir do momento que você já tem patrocínios, que você tem uma imagem a zelar, aí sim é importante de verdade! Você tem que tentar agradar a gregos e troianos, mas de uma forma geral a gente não consegue, sempre tem alguém que vai achar ruim. A única pessoa que não pode achar ruim é você mesmo. Eu não vou correr um campeonato para agradar alguém, eu tenho que ir lá correr porque eu quero correr. Da mesma forma que eu não tenho que ir num pico de rua e mandar uma manobra para filmar e mostrar para alguém; eu tenho que ir ali porque isto me satisfaz, para minha evolução.

E agora que você conseguiu bons patrocínios, pretende continuar com a sua marca ou não?
Claro! A Ynova, desde o início, foi uma maneira de não parar com o skate. É uma marca de shapes e hoje eu tenho patrocínio de outra marca de shapes, porque eu sou atleta. Represento uma empresa que é maior que a minha, só que a Ynova no futuro vai ser minha aposentadoria. Porque eu não quero sair do meio do skate, eu não quero deixá-lo para entrar em alguma outra profissão. Eu posso até fazer algum curso superior, mas vai ser para me ajudar com a marca. Tanto que a Ynova não parou porque eu quero fazer o skate evoluir. E foi a partir disso que eu comecei a patrocinar outros skatistas, o William Fernandes e o Otávio, pra fazer a parada girar.

Falando novamente em eventos e campeonatos no Brasil. Qual foi a premiação mais tosca que você já faturou, nesse tempo todo que tem como competidor?
Em todos estes anos participando de eventos eu poderia falar de duas situações em especial, no meio de tantas! Lembro uma vez que participei de um evento que se pagava um valor relativamente alto na inscrição, terminei em primeiro lugar e para minha surpresa só ganhei uma medalha de honra ao mérito, com um cara estampado dando uma bica em uma bola de futebol. (risos) A outra foi quando ganhei uns quatro itens femininos, que no final das contas foi até melhor que não ganhar nada porque minha mãe curtiu uma camiseta, que ela usou por alguns meses.

E qual foi a premiação que pra você teve maior valor?
Tem dois tipos de valores, né! Material eu poderia citar as premiações que ganhei na Europa, em 2011, no Circuito Mundial. Eram prêmios em dinheiro, passei pra final em todas as três etapas e terminei em 17º no ranking mundial da WCS. Tem também a moto que faturei na Plasma, acho que era o Circuito New, lembro até de uma matéria que saiu na Tribo Skate. No valor sentimental, citaria a vez que ganhei o best trick do Damn Am, em 2012, lá em Tehachapi, na Califórnia. Além disso, tive um reconhecimento legal da organização de Tampa e levei ainda o prêmio de brasileiro destaque.

Você disse que é um atleta. Você bebe ou mantém uma rotina de atleta?
A minha família é católica, por isso é mais uma questão pessoal não gostar de beber porque nunca tive essa influência dentro de casa. Eu sou um cara muito diurno, gosto de dormir à noite e acordar cedo para ir andar de skate. Pode até ser uma balada, mas me incomoda, às vezes, sair à noite porque é uma coisa que te leva a beber.

Mas você não bebeu nunca então?
Eu até bebo, quando estou em um churrasco e tem uma galera. Mas não tenho hábito de sair pra beber e não sou contra quem faz isso, cada um é livre para fazer o que quiser.

E esse lance de ser super organizado, para sair para filmar e fotografar? Você sempre tem uma placa, uma massa plástica?
Essa questão é porque meu pai é um cara bem organizado, entende! Ele bola uma ideia e executa, então eu absorvi isso dele porque andar na rua é uma parada que é diferente. Você chega no pico e tem várias coisas que podem te impedir de andar; por isso eu levo água, vassoura, uma chapa ou qualquer coisa que amenize esses problemas. Em relação a essa questão de ser atleta, eu sempre andei de skate mas nunca pensava nisso antes. Só que tem um momento em que a idade vai chegando, eu já tive lesões e por isso comecei a me preparar melhor para poder andar ainda mais tempo de skate. Eu tive a lesão no tornozelo em minha última turnê na Europa. Quando voltei pro Brasil, procurei uma nutricionista porque estava me sentindo pesado mano, é natural. Você não tem o mesmo peso de quando tinha 15 anos, né? Aí eu perdi 9 quilos, mas antes disso eu tive novamente outra lesão no tornozelo. Procurei uma academia, que até me dá um apoio, e lá eu faço preparação física, musculação e natação. Em casa eu faço um pilates, por conta mesmo. E tudo isso é só pra andar de skate, nunca pensei em ser atleta.

Essa questão de atleta é meio polêmica, né? A maioria dos skatistas não gostam de ser chamados de atleta. O que você acha da possibilidade do skate fazer parte das Olimpíadas?
Cara, é difícil dizer porque ainda não aconteceu. Mas pessoalmente eu acho que não afetaria em nada o lifestyle do skateboarding. O moleque que começar a andar de skate por causa das Olimpíadas, pode sim viver também o estilo de vida do skate. Porque o skate é muito amplo e livre, você pode ser o que você quiser; ser o cara que filma, o cara que compete, qualquer coisa. Acho que isso é o que diferencia o skate dos outros esportes, e esse lifestyle não tem como acabar. O skate nas Olimpíadas vai ser só mais uma ramificação. Numa visão comercial, acho que só tem a somar pois virão novos investimentos que talvez não aconteceriam. Além de uma visibilidade e uma aceitação maior pela população.

E atualmente, você vive de quê?
Atualmente eu vivo de skate! Eu nunca tinha tirado Carteira de Trabalho, fiz a minha primeira para receber de meu atual patrocinador. Mas eu também nunca fiquei à toa, tá ligado! Eu sempre trabalhei em casa com meu pai, que é autônomo. Já trabalhei em serralheria, em supermercado, ferro velho, feira, já trabalhei de pedreiro. Eu nunca fui um cara ocioso, sempre tive o que fazer, só que eu nunca trabalhei pros outros, sempre foi por conta própria e com meu pai.Viajei o mundo e isso o que me proporcionou foi o skate! Quando eu não tinha dinheiro, ia em um campeonato, ganhava e vendia a premiação, e com esse dinheiro fui viajando e sempre andando de skate.

O que você seria se não andasse de skate?
Se algum dia eu tive vontade de fazer alguma outra coisa eu esqueci porque não me imagino fazendo outra coisa. É tão forte o viver do skate, que eu já quebrei a fíbula, torci o pé, quebrei o dedo, já tive um monte de lesões sem receber nada em troca. O plano de saúde eu pago do meu bolso, depois que tive que fazer uma cirurgia no menisco, há uns seis anos. Eu comecei a pagar porque a parada machuca e eu quero andar mais de skate. O propósito da minha vida é andar de skate. Nunca deixarei de fazer isso porque eu acho que com 80 anos dá para dar umas remadas e sentir o vento no rosto, isso aí já vai me fazer feliz para caramba. Eu já tenho esse planos, de que algum dia eu vou deixar de evoluir mas não quero sair do meio do skate.

O que acha das mídias de skate no Brasil?
Hoje a gente tem uma massificação de comunicação, tá ligado? A comunicação está muito ao vivo, o cara posta um vídeo no Instagram lá do outro lado do mundo e você vê agora. Tipo o Tampa Pro, que foi transmitido ao vivo numa ótima qualidade. Quando eu comecei a andar de skate se vivia de especulação. Mandava uma manobra que ela seria divulgada depois de 2 meses, mas as pessoas já sabiam que você tinha mandado a manobra e iam especulando e comentando com outras pessoas. Hoje você tem que dar a manobra, filmar e já postar para dar outra manobra amanhã. Por isso que a galera fica com medo da revista acabar por causa da internet, mas eu acho que não. A revista continua tendo seu charme, porque uma foto impressa tem um respeito muito maior do que um simples post na internet. Acho que uma coisa não apaga a outra, as coisas correm juntas.

E pra finalizar com uma clássica, quais são seus projetos para o futuro?
Então, estou fazendo de tudo pensando em passar para profissional em 2017. Já tenho bastante imagens para fazer uma vídeo parte, mas não sei ainda se lanço esse ano ou só no ano que vem. Pretendo viajar pelo Brasil, não pretendo ir pra fora. E continuar andando de skate, além de ajudar a galera que anda comigo todo dia na sessão, poder fazer com que a gente seja enxergado e que eu consiga andar ainda mais tempo de skate.